Os cacos espalhados pelo chão cobriam uma parte considerável da rua, a maior parte deles estava lá. Amadoristicamente, o porteiro gostava de fazer-se policial da perícia. Imaginava as cenas de crime, na verdade mais as soluções brilhantes que tinha, e os meios inusitados pelos quais as atingia, deixando todos boquiabertos. Nesse caso, pensava, o corpo bateu primeiro no muro e depois expatifou-se na rua. Haviam poucos cacos na calçada e alguns no estacionamento do prédio. Nenhum carro sofreu. Era noite e a rua estava vazia de transeuntes, por sorte, porque a porrada seria fatal. O prejuízo maior foi mesmo o da cerca elétrica. Foi levada no impacto e tinha agora seus cabos pendurados do muro até quase a sargeta. Um pouco de reboco soltou-se e o pó consequente estava lá, já assentado, confirmando que tudo o que tinha de acontecer deu-se.
Os moradores do prédio saíram à janela. Os mais destemidos, va lá, vieram à portaria e, não encontrando ninguém, foram à rua. Lá, o que viram foram os vizinhos e curiosos que olhavam a cena. Ali, não só o porteiro, mas, confessemos despudoradamente a intimidade alheia, muitos mais julgavam-se grandes detetives às voltas com um caso complicadíssimo. Mesmo que a imagem fosse, agora, a do porteiro varrendo para fora do portão os cacos de vidro e plástico que estavam perto da entrada da garagem e que poderiam, mesmo que remotamente, mas, concordemos, melhor não arriscar, furar algum pneu.
Acima de sua cabeça via-se a janela, há seis andares, quebrada e com o alumínio retorcido.
- Alguém se machucou, pergutaria qualquer um.
- Não, responderia o porteiro. Graças a Deus, ninguém. Eu ouvi o barulho e corri pra cá. Fui com o síndico no 601, batemos na porta, nada. Ele pegou a chave e o apartemento estava vazio. Ninguém estava lá. Só o gato. Também assim, de olhadela, não tinha nada faltando. Digo além da tv, né? E de diferente mesmo, só a janela quebrada.
A polícia já estava a caminho.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Queda
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