segunda-feira, 25 de julho de 2011

Queda

Os cacos espalhados pelo chão cobriam uma parte considerável da rua, a maior parte deles estava lá. Amadoristicamente, o porteiro gostava de fazer-se policial da perícia. Imaginava as cenas de crime, na verdade mais as soluções brilhantes que tinha, e os meios inusitados pelos quais as atingia, deixando todos boquiabertos. Nesse caso, pensava, o corpo bateu primeiro no muro e depois expatifou-se na rua. Haviam poucos cacos na calçada e alguns no estacionamento do prédio. Nenhum carro sofreu. Era noite e a rua estava vazia de transeuntes, por sorte, porque a porrada seria fatal. O prejuízo maior foi mesmo o da cerca elétrica. Foi levada no impacto e tinha agora seus cabos pendurados do muro até quase a sargeta. Um pouco de reboco soltou-se e o pó consequente estava lá, já assentado, confirmando que tudo o que tinha de acontecer deu-se.
Os moradores do prédio saíram à janela. Os mais destemidos, va lá, vieram à portaria e, não encontrando ninguém, foram à rua. Lá, o que viram foram os vizinhos e curiosos que olhavam a cena. Ali, não só o porteiro, mas, confessemos despudoradamente a intimidade alheia, muitos mais julgavam-se grandes detetives às voltas com um caso complicadíssimo. Mesmo que a imagem fosse, agora, a do porteiro varrendo para fora do portão os cacos de vidro e plástico que estavam perto da entrada da garagem e que poderiam, mesmo que remotamente, mas, concordemos, melhor não arriscar, furar algum pneu.
Acima de sua cabeça via-se a janela, há seis andares, quebrada e com o alumínio retorcido.
- Alguém se machucou, pergutaria qualquer um.
- Não, responderia o porteiro. Graças a Deus, ninguém. Eu ouvi o barulho e corri pra cá. Fui com o síndico no 601, batemos na porta, nada. Ele pegou a chave e o apartemento estava vazio. Ninguém estava lá. Só o gato. Também assim, de olhadela, não tinha nada faltando. Digo além da tv, né? E de diferente mesmo, só a janela quebrada.
A polícia já estava a caminho.

domingo, 10 de abril de 2011

De novo.

No dia seguinte, a ida ao trabalho foi como todas, seguida dos eventos tradicionais e indignos de nota, ou mesmo de citação. Se o citamos, foi como uma homenagem ao vazio das coisas. Assim como o pensamento de que essa ida ao trabalho, sempre similar, carregada infinitamente de mais elementos idênticos do que diferentes, mesmo considerando peculiaridades individuais, como a chuva de um dia, ou a bunda que se viu, o acidente ou mesmo até um assalto bem na sua frente com a vítima triste e para a qual não se prestou socorro, visto óbvio que recuperar o que ela perdeu é tarefa muito além de sua capacidade, ressarcir-lhe o valor é absurdo e consolá-la é papel de quem a conheça, o que se pode fazer sensatamente é retomar o caminho do trabalho, porque desse não se pode fugir. Ainda considerando, com a prolixidade que se pode permitir essa narração, que qualquer uma dessas interrupções do caminho poderia significar o pretexto para o início de uma aventura. A chuva, a bunda, o assalto. E de fato a vida do porteiro passará por mudanças tremendas nas quais o trajeto ao trabalho será, por vezes, coadjuvante, ou mesmo protagonista, senão vilão em muitas delas. Fosse essa a história do porteiro e isso teria alguma importância para nós. Porém, o foco está em outro lugar e o fim do caminho é mais significativo. E a decepção em seu rosto ao receber a notícia conta mais até do que o que virá futuramente a matá-lo ou causar-lhe êxtase. A vida dá e tira com a mesma facilidade. É a percepção que temos dos ganhos e perdas que faz a diferença. E diante de certos fatos não se pode reclamar. Não publicamente, pelo menos. Por isso, num dia promissor, depois da alegria de se ver menos só no trabalho pela presença da nova companheira, é que ele, com a raiva que ninguém poderia censurar, bem verdade que mais uma irritação conformada, senta-se onde sempre sentou e vê o balcão vazio.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Portaria

O porteiro veio buscá-la assim que chamado e a levou na dúvida se a punha no reciclável, no lixo comum ou dava a um conhecido necessitado cuja condição na vida não lhe permitisse o luxo de escolher se sua televisão teria ou não pés. Dentre o lixo e os amigos, escolheu a si. A portaria, como todas, sofria a desolação natural de ser um lugar de passagem em cuja estadia, sem nenhuma distração, fazia da maior parte de seu tempo de trabalho, um tédio. Pois que fique aqui, decidiu.

Colocou-a sobre o balcão, virada para si e de costas a quem entrava ou saia do edifício, de forma que ninguém poderia saber o que ele estava assistindo. Com uma toalha que trazia de casa diariamente para o banho enrolou a deformidade abaixo da TV escondendo-a. Assistiu ao que quis até o fim de seu turno.

À pergunta do porteiro da noite respondeu que a sra do 307 lhe deu a TV para jogar fora, mas que ficou com pena e a pôs ali como companheira no trabalho. Servindo a ambos, desde que se observasse com cuidado se ela não esquentava demais, dada a deformidade tão parecida com um pé que se formara embaixo por causa do calor. Dito isto, foi-se, deixando o porteiro noturno a olhar curioso por debaixo da toalha. Saiu antes de ver os olhos dele crescerem quase além das órbitas enquanto dava um passo para trás e fazia o sinal da cruz.

Ao lixo.

Estava no chão como as compras da semana também, espalhadas algumas para fora das sacolas. Dilatação do tempo. Algumas eras passaram nos minutos (mal foram dois) em que a mãe percebeu a TV no chão. Ergo-a ou não? Havia um pé nessa coisa agora pouco e nos anos todos que a tivemos exatamente ali, em cima do rac da sala, ela nunca, nem nas brigas das crianças, nem nas faxinas mais apressadas, nos acidentes tradicionais a que as crianças se sujeitam, ela nunca saiu do lugar. Por que logo hoje, depois de vermos aquela coisa que apareceu de repente, sem ninguém em casa, com as janelas fechadas, do nada, ela está caída no chão com a tela voltada para baixo? Ergueu-a, tocou o pé com a ponta dos dedos, como a constatar a falta de vida do plástico deixando que os sentidos confirmassem o que a lógica categoricamente afirmava em sua cabeça. Não era nada demais. Um defeito interno, possivelmente um aquecimento excessivo de alguma peça, o tubo talvez, acabou por derreter o plástico e uma coincidência similar àquelas que estampam santos nas janelas ou o rosto de cristo em uma batata, a virgem nas manchas de café do coador ou as mensagens satânicas no disco infantil se ouvido ao contrário, um defeito em suma, somado à sorte, ao acaso, esculpiu um pé na televisão. Que estava feia agora. Sendo importante, obrigatória pelo bom senso, a atitude de desfazer-se dela e comprar uma nova, principalmente se considerar o assunto das visitas e a superstição dessa gente que pode acabar por concluir à sua maneira que isso era coisa sobrenatural, demoníaca, fantasmagórica ou o que o valha. Ao lixo, concluiu.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Pé.

É um pé. E era. Tudo bem que isso não basta. A frase, em si não diz nada demais. Nem a ação em si. Uma pessoa a apontar um pé e identificando-o como tal não desperta interesse nenhum, pelo contrário. Um pé, para despertar o interesse em alguém, mais ainda, para estarrecer toda a família pronta para sair de casa de manhã precisa de atributos. Verdade que ele não os tinha. Seria mais correto afirmar que ele mais era um atributo do que que os possuía. E aqui entra o estranhamento do caso: O pé estava surgindo debaixo da televisão. Era exatamente do mesmo material da TV: plástico. Da mesma cor e design. Afora a certeza de que ontem ele não estava lá, diria-se certamente que saiu da fábrica daquela maneira, fruto do mau gosto de um funcionário que teve este projeto aprovado sabe Deus como. Abaixo da TV, a suportar o peso dela e dos olhares de todos os habitantes da casa que, atrasados, perderam pouco tempo a contemplá-lo. Mais do que podiam e muito menos do que a curiosidade exigia. O pé foi o assunto do trajeto da escola, do trabalho e dos afazeres diários a que o labor nos sujeita e dos quais a mãe era a responsável. Está nascendo um pé em nossa televisão. Que será isso? Vá saber. Que legal. Eu achei arrepiante. Melhor jogar ela fora. Deixa, eu quero ver. Quando eu chegar, vejo o que faço.

Filhos na escola, marido no trabalho, compras da semana nas sacolas, contas na caixa de correio, cumprimentar o porteiro, elevador, pegar as chaves na bolsa, abrir a porta, olhar, claro, para a TV... Espanto. Ela não estava lá.