quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Portaria

O porteiro veio buscá-la assim que chamado e a levou na dúvida se a punha no reciclável, no lixo comum ou dava a um conhecido necessitado cuja condição na vida não lhe permitisse o luxo de escolher se sua televisão teria ou não pés. Dentre o lixo e os amigos, escolheu a si. A portaria, como todas, sofria a desolação natural de ser um lugar de passagem em cuja estadia, sem nenhuma distração, fazia da maior parte de seu tempo de trabalho, um tédio. Pois que fique aqui, decidiu.

Colocou-a sobre o balcão, virada para si e de costas a quem entrava ou saia do edifício, de forma que ninguém poderia saber o que ele estava assistindo. Com uma toalha que trazia de casa diariamente para o banho enrolou a deformidade abaixo da TV escondendo-a. Assistiu ao que quis até o fim de seu turno.

À pergunta do porteiro da noite respondeu que a sra do 307 lhe deu a TV para jogar fora, mas que ficou com pena e a pôs ali como companheira no trabalho. Servindo a ambos, desde que se observasse com cuidado se ela não esquentava demais, dada a deformidade tão parecida com um pé que se formara embaixo por causa do calor. Dito isto, foi-se, deixando o porteiro noturno a olhar curioso por debaixo da toalha. Saiu antes de ver os olhos dele crescerem quase além das órbitas enquanto dava um passo para trás e fazia o sinal da cruz.

Ao lixo.

Estava no chão como as compras da semana também, espalhadas algumas para fora das sacolas. Dilatação do tempo. Algumas eras passaram nos minutos (mal foram dois) em que a mãe percebeu a TV no chão. Ergo-a ou não? Havia um pé nessa coisa agora pouco e nos anos todos que a tivemos exatamente ali, em cima do rac da sala, ela nunca, nem nas brigas das crianças, nem nas faxinas mais apressadas, nos acidentes tradicionais a que as crianças se sujeitam, ela nunca saiu do lugar. Por que logo hoje, depois de vermos aquela coisa que apareceu de repente, sem ninguém em casa, com as janelas fechadas, do nada, ela está caída no chão com a tela voltada para baixo? Ergueu-a, tocou o pé com a ponta dos dedos, como a constatar a falta de vida do plástico deixando que os sentidos confirmassem o que a lógica categoricamente afirmava em sua cabeça. Não era nada demais. Um defeito interno, possivelmente um aquecimento excessivo de alguma peça, o tubo talvez, acabou por derreter o plástico e uma coincidência similar àquelas que estampam santos nas janelas ou o rosto de cristo em uma batata, a virgem nas manchas de café do coador ou as mensagens satânicas no disco infantil se ouvido ao contrário, um defeito em suma, somado à sorte, ao acaso, esculpiu um pé na televisão. Que estava feia agora. Sendo importante, obrigatória pelo bom senso, a atitude de desfazer-se dela e comprar uma nova, principalmente se considerar o assunto das visitas e a superstição dessa gente que pode acabar por concluir à sua maneira que isso era coisa sobrenatural, demoníaca, fantasmagórica ou o que o valha. Ao lixo, concluiu.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Pé.

É um pé. E era. Tudo bem que isso não basta. A frase, em si não diz nada demais. Nem a ação em si. Uma pessoa a apontar um pé e identificando-o como tal não desperta interesse nenhum, pelo contrário. Um pé, para despertar o interesse em alguém, mais ainda, para estarrecer toda a família pronta para sair de casa de manhã precisa de atributos. Verdade que ele não os tinha. Seria mais correto afirmar que ele mais era um atributo do que que os possuía. E aqui entra o estranhamento do caso: O pé estava surgindo debaixo da televisão. Era exatamente do mesmo material da TV: plástico. Da mesma cor e design. Afora a certeza de que ontem ele não estava lá, diria-se certamente que saiu da fábrica daquela maneira, fruto do mau gosto de um funcionário que teve este projeto aprovado sabe Deus como. Abaixo da TV, a suportar o peso dela e dos olhares de todos os habitantes da casa que, atrasados, perderam pouco tempo a contemplá-lo. Mais do que podiam e muito menos do que a curiosidade exigia. O pé foi o assunto do trajeto da escola, do trabalho e dos afazeres diários a que o labor nos sujeita e dos quais a mãe era a responsável. Está nascendo um pé em nossa televisão. Que será isso? Vá saber. Que legal. Eu achei arrepiante. Melhor jogar ela fora. Deixa, eu quero ver. Quando eu chegar, vejo o que faço.

Filhos na escola, marido no trabalho, compras da semana nas sacolas, contas na caixa de correio, cumprimentar o porteiro, elevador, pegar as chaves na bolsa, abrir a porta, olhar, claro, para a TV... Espanto. Ela não estava lá.