Estava no chão como as compras da semana também, espalhadas algumas para fora das sacolas. Dilatação do tempo. Algumas eras passaram nos minutos (mal foram dois) em que a mãe percebeu a TV no chão. Ergo-a ou não? Havia um pé nessa coisa agora pouco e nos anos todos que a tivemos exatamente ali, em cima do rac da sala, ela nunca, nem nas brigas das crianças, nem nas faxinas mais apressadas, nos acidentes tradicionais a que as crianças se sujeitam, ela nunca saiu do lugar. Por que logo hoje, depois de vermos aquela coisa que apareceu de repente, sem ninguém em casa, com as janelas fechadas, do nada, ela está caída no chão com a tela voltada para baixo? Ergueu-a, tocou o pé com a ponta dos dedos, como a constatar a falta de vida do plástico deixando que os sentidos confirmassem o que a lógica categoricamente afirmava em sua cabeça. Não era nada demais. Um defeito interno, possivelmente um aquecimento excessivo de alguma peça, o tubo talvez, acabou por derreter o plástico e uma coincidência similar àquelas que estampam santos nas janelas ou o rosto de cristo em uma batata, a virgem nas manchas de café do coador ou as mensagens satânicas no disco infantil se ouvido ao contrário, um defeito em suma, somado à sorte, ao acaso, esculpiu um pé na televisão. Que estava feia agora. Sendo importante, obrigatória pelo bom senso, a atitude de desfazer-se dela e comprar uma nova, principalmente se considerar o assunto das visitas e a superstição dessa gente que pode acabar por concluir à sua maneira que isso era coisa sobrenatural, demoníaca, fantasmagórica ou o que o valha. Ao lixo, concluiu.
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