O porteiro veio buscá-la assim que chamado e a levou na dúvida se a punha no reciclável, no lixo comum ou dava a um conhecido necessitado cuja condição na vida não lhe permitisse o luxo de escolher se sua televisão teria ou não pés. Dentre o lixo e os amigos, escolheu a si. A portaria, como todas, sofria a desolação natural de ser um lugar de passagem em cuja estadia, sem nenhuma distração, fazia da maior parte de seu tempo de trabalho, um tédio. Pois que fique aqui, decidiu.
Colocou-a sobre o balcão, virada para si e de costas a quem entrava ou saia do edifício, de forma que ninguém poderia saber o que ele estava assistindo. Com uma toalha que trazia de casa diariamente para o banho enrolou a deformidade abaixo da TV escondendo-a. Assistiu ao que quis até o fim de seu turno.
À pergunta do porteiro da noite respondeu que a sra do 307 lhe deu a TV para jogar fora, mas que ficou com pena e a pôs ali como companheira no trabalho. Servindo a ambos, desde que se observasse com cuidado se ela não esquentava demais, dada a deformidade tão parecida com um pé que se formara embaixo por causa do calor. Dito isto, foi-se, deixando o porteiro noturno a olhar curioso por debaixo da toalha. Saiu antes de ver os olhos dele crescerem quase além das órbitas enquanto dava um passo para trás e fazia o sinal da cruz.
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